Reabertura Caverna Desmoronada

by Júnior Petar

Depois de 15 anos, a Caverna Desmoronada volta a receber visitantes no PETAR

A Caverna Desmoronada, no Núcleo Caboclos do PETAR, em Iporanga, voltou a receber visitantes. A reabertura foi anunciada pela Fundação Florestal na quarta-feira, 28 de outubro de 2026, depois de 15 anos com a visitação suspensa.

A caverna ficou fechada todo esse tempo para que fossem feitos os estudos e levantamentos necessários para definir como ela pode ser visitada sem comprometer o ambiente subterrâneo. Agora ela volta aos roteiros do parque como um dos passeios mais longos e exigentes do PETAR: cerca de 10 km de trilha, 900 metros de percurso dentro da caverna e uma média de oito horas entre ida e volta.

Para quem conhece o Vale do Ribeira, a notícia tem um peso especial. A Desmoronada sempre foi lembrada, junto com a Temimina, como uma das grandes cavernas do Núcleo Caboclos, o mais isolado do parque. Uma geração inteira de monitores e visitantes só ouviu falar dela. A partir de agora dá pra conhecer.

Por que ela se chama Desmoronada

O nome vem da própria geologia. O interior da caverna é tomado por blocos enormes de rocha, resultado de antigos abatimentos naturais do teto. Esses desabamentos, que aconteceram ao longo de milhares de anos, criaram grandes salões, galerias irregulares, desníveis e passagens acidentadas. Ou seja, o chão da Desmoronada é um caos de pedras que o visitante precisa atravessar.

A água também trabalhou bastante ali. O rio subterrâneo esculpiu corredores e alargou galerias, e em alguns trechos a ressurgência desse rio cruza a cavidade e faz parte do passeio.

Nas galerias superiores ficam os espeleotemas, as formações minerais que todo mundo quer ver numa caverna: estalactites, estalagmites, colunas, cortinas, escorrimentos e travertinos. Dois pontos chamam atenção: uma grande coluna central e o Pórtico do Vale das Ilusões, uma abertura que liga os grandes salões superiores da caverna.

A Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE) descreve a Desmoronada como uma cavidade horizontal em rocha calcária, marcada por grandes colapsos e com travessia em túnel. Ela atravessa uma montanha no Núcleo Caboclos: tem uma entrada monumental e uma saída que se abre direto no paredão do Vale da Ilusão. Está inscrita no Cadastro Nacional de Cavidades Naturais como SP-015.

Dois jeitos de visitar

A Desmoronada foi aberta com duas opções de roteiro, as duas classificadas como difíceis.

Circuito Como é Pra quem
Tradicional Entra e sai pela mesma boca. O percurso passa pelos salões superiores até o Pórtico do Vale das Ilusões. Quem quer conhecer os salões e os espeleotemas sem a escalaminhada
Travessia Começa pela ressurgência do rio, sobe entre os grandes blocos, inclui uma escalaminhada interna até os salões superiores e sai por outra entrada da caverna. Quem já tem experiência em caverna e quer o roteiro completo

Nos dois casos a conta é parecida: cerca de 10 km de trilha na mata, mais ou menos 900 metros dentro da caverna e oito horas de atividade entre ida e volta. Não é passeio pra fazer de chinelo nem pra encaixar na tarde. É um dia inteiro de aventura, e vale cada minuto.

O que foi feito nesses 15 anos

A reabertura não aconteceu do nada. Ela é fruto do Plano de Manejo Espeleológico da Desmoronada, um trabalho que reuniu cerca de 100 profissionais de várias áreas, coordenado pela Fundação Florestal, órgão ligado à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado (Semil).

Os estudos juntaram décadas de pesquisa acumulada na região com levantamentos novos feitos dentro da caverna. Foram analisados:

  • geologia e estabilidade dos blocos de rocha
  • circulação da água subterrânea
  • temperatura e umidade
  • fauna cavernícola e riscos biológicos
  • possíveis registros históricos, culturais e arqueológicos
  • mapeamento detalhado de galerias, salões, desníveis e áreas mais frágeis

Com isso foi montado o Zoneamento Ambiental Espeleológico (ZAE), que define quais setores da caverna podem receber visitantes, quais pedem um controle mais rígido e quais ficam reservados à conservação. O ZAE também estabeleceu a capacidade de uso da cavidade e os impactos esperados da visitação.

Segundo Tatiane Ashino, diretora de Planejamento e Ordenamento Territorial da Fundação Florestal, foram anos de estudo pra entender a caverna e definir a melhor forma de receber visitantes de maneira responsável. Já o diretor-executivo da Fundação, Rodrigo Levkovicz, resume o espírito do trabalho: o patrimônio natural precisa ser “conhecido e valorizado pela sociedade”, mas dentro de critérios que garantam sua conservação.

Não foi só a Desmoronada

A Desmoronada faz parte de um pacote maior. A conclusão desses estudos resultou na reabertura de 30 cavernas para visitação pública, a partir de 32 Planos de Manejo Espeleológico que cobriram 20 cavernas do PETAR, 10 do Parque Estadual Intervales, uma do Parque Estadual do Rio Turvo e a Caverna do Diabo. É o maior ordenamento de uso público em cavernas já feito no estado, e um marco pra toda a Região Turística Cavernas da Mata Atlântica.

A Fundação Florestal também destaca o efeito econômico: a retomada movimenta monitores ambientais autônomos, pousadas, restaurantes, transportadores e o comércio de Iporanga e Apiaí.

Onde a Desmoronada se encaixa no PETAR

O parque reúne mais de 350 cavernas, entre secas e molhadas, com salões gigantes, dunas, cachoeiras internas, abismos de até 240 metros e trechos de quebra-corpo e escalada. Ali estão a Casa de Pedra, com o maior pórtico do mundo (197 metros de altura, segundo o Instituto de Geociências da USP), e a Santana, a maior do estado, com mais de 8 km. A Caverna do Diabo fica na mesma região, mas em outro parque, o Parque Estadual Caverna do Diabo.

Dessas 350, só uma parte pequena é aberta à visitação, por causa de riscos, dificuldade de acesso ou fragilidade do ambiente. Até a reabertura da Desmoronada, eram 12 as cavernas visitadas no PETAR: Santana, Água Suja, Morro Preto, Couto, Cafezal, Alambari de Baixo, Ouro Grosso, Aranhas, Chapéu Mirim I e II e Teminina I e II. A Desmoronada é a 13ª, e a primeira de alta dificuldade a entrar na lista em muito tempo.

Segurança em primeiro lugar

Por ser um roteiro de alta dificuldade, a visita segue protocolos próprios. O monitor ambiental credenciado acompanha o grupo o tempo todo e o uso dos equipamentos de segurança definidos pra atividade é obrigatório.

Pra estruturar o atrativo, a Fundação Florestal comprou cordas técnicas e hastes de aço inox que demarcam o caminhamento dentro da caverna e isolam as áreas mais sensíveis. Isso serve tanto pra orientar o visitante quanto pra proteger o ambiente.

Além disso, foram elaborados Protocolos de Gestão de Segurança pra todos os monitores credenciados a conduzir grupos na Desmoronada, segundo Rodrigo Aguiar, gestor da APA Quilombos do Médio Ribeira. Na prática: nem todo monitor do PETAR vai poder levar visitantes lá, só quem estiver credenciado especificamente pra esse atrativo.

Como visitar a Caverna Desmoronada

   
Onde Núcleo Caboclos, PETAR, Iporanga (SP)
Quando Segunda a domingo, com reserva antecipada
Dificuldade Difícil
Percurso ~10 km de trilha + ~900 m de caverna
Duração ~8 horas (ida e volta)
Monitor Obrigatório, credenciado para o atrativo
Reservas ingressosonline.fflorestal.sp.gov.br
Informações (15) 3552-1875 (Fundação Florestal / PETAR)

Algumas dicas de quem conhece a região:

  • Reserve com antecedência. O atrativo tem capacidade de uso definida pelo ZAE, então as vagas por dia são limitadas.
  • Leve lanterna de cabeça com pilha reserva, capacete (se o monitor não fornecer), roupa de caminhada que pode molhar, tênis ou bota com boa aderência e comida pro dia inteiro.
  • Prepare o condicionamento. São 10 km de trilha mais escalaminhada e blocos dentro da caverna. Se você nunca fez caverna no PETAR, comece pela Santana, Morro Preto ou Ouro Grosso antes.
  • Durma em Iporanga ou no Bairro da Serra na véspera. A saída pro Núcleo Caboclos é cedo e o dia é longo.
  • Contrate uma agência ou monitor credenciado. A Parque Aventuras e as demais agências credenciadas do PETAR já estão organizando as primeiras saídas.

Fotos: Fundação Florestal/Divulgação

Fontes:

05-saida-vale-da-ilusao-altodaserrapetar
04-entrada-estalactites-vegetacao
03-boca-da-caverna-contraluz
02-salao-estalagmites-vertical

You may also like