Cidade
de Apiaí - "Portal da Mata Atlântica"
("Rio
Menino" em Tupi-Guarani)
Origem
e divulgação da arte do barro na região
A história da produção da cerâmica
utilitária, na região do Alto Vale do Ribeira,
tem sua origem nas três principais etnias da formação
do povo brasileiro, mas a indígena e a africana, com
certeza, são as mais significativas.
As técnicas de confecção e de queima
foram herdadas da etnia tupi-guarani, da qual se originam
os nomes de cidades, rios, e plantas da região; são
as mesmas utilizadas por grupos indígenas produtores
de cerâmica. Restos de urnas mortuárias encontradas
em um sítio identificado como cemitério indígena,
localizado na rodovia que liga Apiaí ao município
de Ribeirão Branco, comprovam a ocupação
do território por povos indígenas, e são
reproduzidas, atualmente, por ceramistas do Bairro Encapoeirado.
A técnica de fabrico, a partir de rolinhos superpostos,
alisados com sabugo de milho, ou casca de cuité, do
tupi “kuya e’tê”(crescentia cujete),
polida depois de seca com pedrinha do rio, e a pintura com
taguá ( ta’wa – do tupi - “argila
amarela” – tinta que se faz com a argila aluvional,
cuja coloração amarela provém do óxido
de ferro) permitem essa conclusão. A decoração
das peças não lembra as incisões geométricas
e a perfeição simétrica de produções
como a Marajoara e Kadwel, porém as formas dos vasilhames
assemelham-se às produções indígenas
encontradas em vários museus do Brasil : Museus dos
Salesianos ( Norte e Nordeste ), Museu do “Páteo
do Colégio” – São Paulo.
Outras características observadas na cerâmica
decorativa de Apiaí, e essas podem ser de origem africana,
são as “bonecas” e os “bichos”,
ou seja, a cerâmica antropomorfa e a zoomorfa, cuja
expressão facial lembra não as máscaras,
que influenciaram Picasso, mas as figurações
tridimensionais primitivas em cerâmica do continente
africano, principalmente do Egito: olhos grandes e oblíquos.
A presença da etnia negra em Apiaí está
registrada no povoamento que se iniciou com a vinda de Francisco
Xavier da Rocha, na segunda metade do século XVIII,
o qual havia sido capitão-mor num dos arraiais de Minas
Gerais, de onde partiu, trazendo entre mineradores, esposas
e filhos, 150 escravos negros. (Luz,1996).
Segundo pesquisa realizada por Haydée Nascimento, em
1973, a maioria das artesãs da região era negra
ou mulata. Atualmente esse dado não é observado,
porém as marcas das antigas mestras continuam em alguns
dos produtores, seus herdeiros.
Devido às dificuldades de acesso, o Alto Vale do Ribeira
permaneceu durante séculos isolado das regiões
mais desenvolvidas do Estado de São Paulo. A dificuldade
em adquirir objetos industrializados, levou os artesãos
a produzir utensílios de barro, madeira, palha, taboa,
cipó, e de outras matérias-primas naturais,
para uso próprio e para venda. A produção
de utilitários em cerâmica foi incrementada pela
cultura portuguesa, como a moringa: ou são bonecas
ocas, cuja cabeça é móvel, ou a tripé,
semelhante à moringa trípode globular, encontrada
em Sete Lagoas, Minas Gerais. Também é fabricada
na região uma variação de cântaros,
como a “Cantarinha de Coimbra” : moringa com duas
asas e duas bocas opostas.
A moringa tripé foi eleita a Cerâmica-símbolo
de Apiaí. Trata-se de um objeto elaborado em três
partes: a base são os três pés, cuja forma
é globular, que sobem como pernas ligadas por uma placa
até se juntarem formando um tubo com o orifício
para receber o líquido. A tampa tem o formato de um
chapéu chinês. Essa forma, observada de todos
os lados lembra a letra “A”. Por esse motivo,
foi batizada como tripé de Apiaí.
Quanto às técnicas de produção,
vale lembrar as influências dos povos antigos, como
a coleta do barro “na minguante”, alguns tipos
de comportamento durante a queima, para as vasilhas não
racharem. A confecção das peças é
realizada por etapas, de acordo com as dificuldades na elaboração.
O processo de queima começa com a secagem, feita, geralmente,
à sombra, o polimento e, após 15 a 20 dias,
são colocadas, cuidadosamente, cercadas com cacos de
cerâmica, em fornos cavados na inclinação
de barrancos, ou em outro tipo de forno artesanal, confeccionado
pelos próprios ceramistas.
O reconhecimento e a divulgação da cerâmica
de Apiaí, começou a partir de 1954, quando,
por ocasião dos festejos do 4º Centenário
da capital paulista, o artista plástico Oswald de Andrade,
filho do escritor e poeta modernista Oswald de Andrade, pesquisou
nesta região as produções de arte popular,
recolhendo peças de cerâmica para fazerem parte
de uma grande Exposição, durante o evento. Na
década de 1960, folcloristas, estudiosos de Arte, antropólogos
e geólogos vinham de todo o país realizar pesquisas
na região. Nessa época, as peças ficavam
expostas na Bilbioteca Municipal de Apiaí.
Uma peça antropomórfica, exposta no Museu Paulista,
foi oferecida pela SUTACO ao Príncipe Charles da Inglaterra,
em 1984.
“As ceramistas, em geral, ainda têm uma série
de problemas cuja resolução depende exclusivamente
de uma melhor divulgação desse artesanato belo,
estranho, curioso, com características únicas
e que se for controlado por inescrupulosos irá fatalmente
desaparecer! Constatamos mais uma vez que no caso do artesanato
como este, o distanciamento dos veículos de comunicação
e aculturação, atuam como fator estimulante
da criação artística, pois as mãos
tornam realidades concretas os sonhos que rondam suas mentes
fantasiosas mas solitárias.” ( Lourdes Cedran
)
Apesar de passar por grandes dificuldades de embalagem e de
transporte da mercadoria, os ceramistas de Apiaí não
desistiram e continuam em grupo, ou individualmente, procurando
nessa fonte alternativa de renda, suprir as dificuldades e
perdas na agricultura. Suas peças são comercializadas
através da Casa do Artesão e em Feiras Culturais:
Revelando São Paulo – Vale do Ribeira, em Iguape;
Revelando São Paulo – Parque da Água Branca;
Encontro dos Vales – Ilha Comprida; Economia Familiar
– Brasília. Muitos convites são recusados
por falta de transporte.
Atualmente, os artesãos de Apiaí e Região
se encontram organizados em Associações: ASSOCIAÇÃO
DOS ARTESÃOS DO ALTO VALE DO RIBEIRA e ASSOCIAÇÃO
DOS ARTESÃOS DE APIAÍ “ Custódia
de Jesus da Cruz” bairro Encapoeirado.
Todas as informações sobre os artesãos
podem ser fornecidas pela Casa do Artesão de Apiaí,
situada à Praça Jonas Dias Batista, nº
09, Cep 18320000.
Tel ( 15 ) 3552-4139. FAX ( 15 ) 35523945.
E-mail – casadoartesao@apiai.sp.gov.br
Texto: Ana Maria Tadeu da Silva
Colaboração: Lia de Camargo Ferreira
Colaboração Especial: Guacira Waldeck, antropóloga.
Fonte:
Secretária de Cultura de Apiaí
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